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Noivado desfeito pela enxurrada

19-03-2010
 

Neste domingo, 21, Alda Tengo(na foto abaixo) e Francisco Gomes deveriam celebrar a festa de noivado. Não vai acontecer, porque a chuva que caiu na madrugada de segunda-feira, 15, em Luanda, tirou a vida ao noivo e às suas duas filhas, separando-os em definitivo.

Embora o noivado estivesse marcado para aquele domingo, o casal já vivia junto na Samba, numa casa, com os seus filhos que também acabaram por falecer ao mesmo tempo que o pai, Francisco Gomes, todos eles vítimas de desabamento de uma parede.

Alda Tengo é a única sobrevivente da tragédia ocorrida em consequência da queda do muro da casa em que viviam, provocada pelo deslocamento do alicerce da residência do vizinho.

Os familiares de Alda Tengo fazem parte das 13 pessoas que morreram em Luanda vítimas da chuva.

‘Eu, o meu marido e os nossos dois filhos estávamos a dormir quando a parede caiu sobre nós. Realmente não sei explicar como é que sobrevivi’
O incidente aconteceu à 1h00 da manhã, apanhando de surpresa os quatro elementos, Francisco João Gomes, de 36 anos, Marília Francisco João, 15, António Gomes, 11 meses, e Alda Tengo “Tina”, a sobrevivente.

Visivelmente abalada e com a voz trémula, explicou ao nosso jornal que tudo aconteceu muito rápido naquela madrugada: “Eu, o meu marido e os nossos dois filhos estávamos a dormir quando a parede caiu sobre nós. Realmente não sei explicar como é que sobrevivi”, lamentou.

Acrescentou que “ouvi algo a embater contra a nossa parede, pensei que fosse algo normal e num fechar de olhos o meu marido e os filhos já estavam debaixo dos blocos”.

Tina lembra que sob o temporal pediu socorro aos vizinhos que em vão tentaram salvar as vítimas que se encontravam debaixo dos escombros. O peso das pedras, a escuridão e a chuva, impediram que os corpos fossem removidos naquele instante.

Os Bombeiros chegaram ao local às 3h00 e devido ás dificuldades, os corpos foram removidos somente às 7h00 da manhã.

Naquela madrugada de chuva, Tina, como é carinhosamente chamada, não perdeu só o marido e os filhos.Na ressaca, a água arrastou os poucos bens que possuiam, incluindo alimentos e bebidas.

 “Perdi o meu noivo e os filhos, a cama, o colchão, as dez grades de cerveja, o sapato e o fato novo que serviriam para o meu pedido, tudo estragou”, lamentou Tina.

A casa em que viviam foi construída há dois anos e está localizada junto a uma vala cercada de lixo.O administrador da Samba, Pedro Fançony, presente no local, lamentou o facto e reprovou a ocupação e a construção desordenada no local.

Apelou aos populares para que deixem de construir ao redor das valas, a julgar pelo risco de erosão de terras.

“A administração vai fazer o levantamento dos prejuízos e, de seguida, prestar alguma ajuda a esta família e outras que foram vítimas das chuvas aqui no município”, concluiu o administrador da Samba.

Crianças soterradas no Kantintom

“A minha filha ficou soterrada sob os escombros e o corpo do meu filho foi encontrado alguns metros à frente na vala, arrastado pela força das  águas. Infelizmente não consegui salvá-los”, lamentou Mateus José, morador do bairro Kantintom, município do Kilamba Kiaxi.

 Desolado, Mateus conta que passavam alguns minutos da meia-noite quando se apercebeu do mau tempo e saiu do quarto deparando-se com o estado lastimável que apresentava a sala: “O nível da água atingia os joelhos, pensei em ficar por cima da arca frigorífica, mas o risco continuava”.

A rápida subida do nível da água obrigou o casal e os filhos a abandonarem a casa paqra se refugiarem em casa dos vizinhos. Ao abrir a porta, “uma onda gigante empurrou-me contra a parede, nunca vi coisa igual”, conta.

O casal, com os filhos nos braços, conseguiu sair até ao quintal onde, com a ajuda de um vizinho, Mateus conseguiu tirar um dos filhos de casa, pedindo ao amigo que o levasse para o outro lado da rua onde parecia haver mais segurança.

O vizinho pousou-o no chão a fim de receber a menina e gritou aos vizinhos para levaram o rapaz para o outro lado da rua mas, “creio que devido a agitação os vizinhos não o ouviram e o menino permaneceu no mesmo sítio”.

O desastre foi fatal quando, ao receber a menina, uma das paredes da casa do lado que fazia barreira à correnteza proveniente da vala de drenagem desabou sobre a pequena de cinco anos.

Com o derrube da parede, o nível da água aumentou e provocou o consequente arrasto do pequeno de três anos entre os escombros alguns metros até à vala.

“Eu e minha mulher tentávamos tirar a nossa filha dos escombros enquanto os vizinhos arriscavam-se a resgatar o meu filho daquela vala”, lembrou o desconsolado pai apontando para a vala com as mãos trémulas.

A triste frase: “não consegui salvar os meus filhos”, foi repetida várias vezes por Mateus durante a entrevista, enquanto Conceição Pedro, mãe das crianças,em choro, não pronunciava uma única palavra.  Conceição é empregada doméstica há um mês e aufere o salário mensal de nove mil Kuanzas (9.000,00 kz), enquanto o pai é desempregado e deambula pelas ruas de Luanda para o sustento da sua família: “Faço a venda ambulante do que aparecer, temo que com essa tragédia a minha esposa perca o emprego”.   O casal vive há menos de um ano na casa onde aconteceu a tragédia, e lamenta não ter outra alternativa: “Infelizmente vamos continuar a viver mesmo aqui até conseguirmos uma casa melhor”.

Mateus informou que a Administração Municipal do Kilamba Kiaxi responsabilizou-se pela restituição dos valores gastos na compra das urnas fúnebres e das covas no cemitério do Camama.

No mesmo município, houve mais três mortes causadas pela inundação da vala de drenagem que tem a montante no Senado da Câmara e a jusante ao Benfica.


 

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