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Reportagem Kwanza Norte

Sobreviver “Trinta anos de solidão” I

19-03-2010
 

Até o corpo esquelético enfiado na elegante e pulcra camisola de polyester azul parece ter sucumbido, há muito, aos rigores do isolamento que fizeram da sua terra um caso curioso de sobrevivência no mais cerrado da savana do Norte de Angola.

Intui-se-lhe o peito castigado pelas quilométricas andanças em nome da sobrevivência; notamse-lhe as concavidades de uma secura não conseguida em ginásios para ricos; captam-se-lhe as medidas enxutas, o emagrecimento áspero, o alinhamento mordaz das costelas mas felizmente percebese, pela respiração robusta e despachada, que não é a saúde a sua angústia maior.

Chama-se Augusto Dias e numa dedução generosa do físico e da alma, será homem para situar-se entre os 73 e os 76 anos de idade.

Não é nem o soba nem a autoridade administrativa que responde pelo Estado. Detém apenas a aura do homem que se destaca, porque aprendeu a ter horror à solidão e gosta de dialogar com quem se aventura por aquelas terras do fim do mundo.

O lugar onde vive e descreve o declínio épico dos últimos anos de vida é o mesmo onde nasceu. Afinal tem 63 anos e não os setenta e tantos que aparenta.

Di-lo ao jornalista, com um sorriso de sobrevivente de grandes catástrofes. Se se pensa que tem mais idade, será apenas porque a dureza dos dias arruinou-lhe a frescura física.

Tudo no ancião é a síntese perfeita da história de Quiquiemba, sua terra.

Parece mergulhado num gigantesco balão de ensaio que durante décadas testou, até ao limite, os prós e os contras do isolamento, a capacidade humana de lhe resistir.

Já quase nada, por isso, consegue agitar os seus genes do espanto.

Vive como todos os outros aldeões, companheiros leais de trinta anos de solidão, o retorno aos poucos ao tempo presente, para triunfar sobre o severo recuo à idade muito próxima da pedra lascada.

A história

Em 1976, no auge da ofensiva que visou afastar de Luanda as forças político-militares que não tinham tido fôlego suficiente para a noite da Independência no Largo 1º de Maio, alguém se lembrou de dinamitar a ponte sobre o rio Dange que ligava a povoação de Quiquiemba, no Kwanza Norte, à comuna de Vista Alegre, na província do Uíge.

Foi quanto bastou para condenar aquelas populações a um exílio sem sair de casa.

Na verdade, a ponte soçobrou demasiado cedo no tempo, porque afinal esperavam-lhe muitas mais guerras, de intensidades variadas e mortandades diversas.

Estando o lugar enfiado numa confluência de caminhos apetecíveis ao manejo das armas (em plenos bosques montanhosos que ligam os Dembos, Kwanza Norte e Uíge, com os seus abundantes cursos de água e facilidades naturais de camuflagem e esconderijos), a paz nunca mais espreitou por ali. E não havendo paz, nunca a ideia da reconstrução da vital infra-estrutura seria sequer ponderada nos gabinetes onde se tomam decisões. Nisso, o tempo seguiu a sua marcha, indiferente a tudo.

Só restou, pois, aos habitantes de Quiquiemba e de todas as restantes aldeolas ribeirinhas que dependiam da ponte, accionar os seus próprios planos de sobrevivência, antes que os medicamentos, o sal, o vestuário e todos os outros bens produzidos fora das suas comunidades, começassem a minguar perigosamente.

Uma ponte de cordas

Quiquiemba, para ter vida para lá da mandioca, do feijão, do milho, da banana e de tudo o mais que se pode extrair das suas férteis lavras, precisa de um razoável centro de consumo por perto, seja uma vila mais ou menos pujante ou um povoado de sonhos diminutos como ele próprio.

Em condições normais, estando a aldeia inserida no território de Bolongongo, seria a vila-sede deste município do Kwanza Norte o ponto ideal para a satisfação das necessidades logísticas vitais dos homens e mulheres de Quiquiemba. Só que esse lugar situa-se a sessenta quilómetros de distância, quase como tentar ir da Terra à Lua num recôndito matagal onde não há estradas nem circulação automóvel.

A saída, possível e única, é adquirir o que se deseja nas aldeias situadas ao longo da estrada nacional que liga Luanda ao Uíge. Porque mesmo não havendo também carros nem estradas para se fazer até lá o percurso, ainda por cima com a necessidade absoluta de se atravessar um rio largo, profundo e caudaloso como o Dange, será sempre um drama menor calcorrear vinte quilómetros que sessenta.

Foi então que nasceu em todos a única ideia salvadora naquele deserto de soluções: uma ponte de cordas vegetais. Arames de resistência conhecida como os célebres cabos de aço dariam um jeito enorme, afastariam para bem longe a medonha precariedade de uma estrutura apoiada em materiais de solidez quase surreal, mas onde encontrá-los?

Augusto Dias, o anfitrião

Em Quiquiemba, qualquer forasteiro dá-se por feliz ao encontrar o velho Augusto Dias.

É uma espécie de eminência parda, à sombra do administrador Hélder Camuendidi Bengui, longe da comuna por razões circunstanciais no dia da nossa visita.

“Nasci aqui, testemunhei tudo”, diz com um à-vontade que reforça, habilmente, pelo seu perfeito domínio da língua em que se comunica, o português.

No diálogo, vê-se que foi homem de apreender muitos saberes no banco da escola. A vida poliu-o e a sua crença em Deus, sublinhada pelo terço enorme que lhe balança sobre o pescoço, permite que fale das guerras fratricidas do passado sem vontade de reabrir feridas.

“Quem partiu a ponte? Ah, já foi há tanto tempo. Culpar quem? Foi um acto de guerra”, afirma, conciliador. Faz apenas questão de confirmar que foi sim no ano de 1976 que ela veio abaixo.

Fala com dor sobre o sofrimento do seu povo, que tem de alcançar o asfalto depois de 20 km de marcha suada, terrível, para fazer-se aos bens de primeira necessidade, como o peixe, o sabão, o açúcar.

“As pessoas levam daqui bombó, em sacos pesados conforme o que cada um aguenta, e vão até à aldeia de Cantoneiro, perto de Vista Alegre, para realizarem a permuta. Entregam o que carregam para lá e recebem as coisas que precisam”, explica tudo com paciência de anfitrião de aldeia, antes de admitir que raramente as pessoas utilizam dinheiro nas suas trocas comerciais.

Marchas à madrugada

Três, quatro ou cinco horas da madrugada, qualquer delas, é boa para se partir de Quiquiemba para a povoação de Cantoneiro em busca da sobrevivência. À saída, só há o breu da noite sertaneja e o cantar áspero e prolongado dos galos a servir de companhia a todos os que iniciam a duríssima viagem, que tem na travessia da ponte de cordas um momento único, de um simbolismo quase bíblico, pois assemelha-se muito a um nascer de novo, sempre.

“Quem leva muito peso, faz cinco horas e meia pelo caminho. Os que vão com peso aliviado, se saem às cinco, dez horas já estão lá”, detalha o ancião, que já perdeu o rasto ao número de vezes que teve de nascer de novo, isto é, atravessar a mítica ponte desenhada e construída para driblar o fantasma do absoluto isolamento.


Escola, fé religiosa…

Rezar, numa terra que parece ter sido esquecida pela Divina Providência, só pode mesmo ser prioridade. Além do mais, Quiquiemba é, afinal, um lugar muito especial, onde se cultiva há décadas, por necessidade extrema de sobrevivência, o hábito de desafiar diariamente o perigo, com a travessia de centenas de pessoas de peso à cabeça, de uma ponte feita certamente metade pelos homens e metade pela vontade protectora de Deus.

“As pessoas às vezes caem. Eu mesmo já caí da ponte de cordas três vezes, e não sei nadar. Foram as pessoas que me salvaram. E o lugar é muito profundo, pois as pontes de corda devem estar ali onde há mais água, para quem cair não morrer, batendo numa pedra ou noutra coisa qualquer ”, confessa António Domingos Canga, numa demonstração inequívoca de que a sua prosperidade de cantineiro não custa pouco.

Notícias de mortes não há, nem uma sequer, e isso dá mais razões para que as pessoas sejam devotas a Deus e roguem, em permanência, a sua protecção suprema.

Em Quiquiemba homenageia-se o Senhor com uma igreja erguida com o suor de todos, de onde, no dia da nossa visita, se ouviram cânticos e louvores de converter qualquer descrente empedernido.

A casa de Deus está alguns metros ao lado da escola, a única da aldeia, que simboliza tudo menos a nobreza da aprendizagem. A igreja serve de sala de aulas a título de cedência e contribuição para o bem comum, enquanto

a escola quase em ruínas está reservada para as duas classes mais elevadas do incompleto ciclo que se pode leccionar na povoação, a terceira e a quarta. Quem se avia com o diploma da antigamente mítica quarta classe, experimenta uma sensação agridoce: faz a festa por passar de ano lectivo mas fica consciente de que até aí vai o seu percurso, a menos que opte pelo mesmo caminho da quase totalidade das aldeias de Angola, que é o de partir para a vila ou cidade grande, onde se ensinam níveis mais acima.

Água gelada aqui?

Grande parte dos benefícios trazidos à civilização humana pelo génio inventivo do homo sapiens passa ao largo dos habitantes de Quiquiemba, sobretudo a sua franja mais nova, os que contam quinze, vinte e até trinta anos.

É escusado ali falar-lhes de Charles Chaplin porque o cinema não consta das felizes vulgaridades do tempo actual e a electricidade com todo o seu poder de induzir conforto e progresso está, também, entre as grandes desconhecidas.

“Aqui se deres água gelada a um miúdo ele não saberá o que é”, comenta, pesaroso, o guia especial de O PAÍS na emocionante viagem por Quiquiemba, o ancião Augusto Dias, enquanto a seu lado uma jovem mulher que não perdeu a vaidade apesar do cruel isolamento Isabel Adão, se incomoda e se alegra assim mesmo com o facto de estar a chover com abundância nos últimos dias.

“Nos rios, por causa da chuva, a água está toda turva, muito suja, não dá para beber. Aqui no bairro temos aproveitado a água limpa da chuva, com tambores”, explica-se a mulher, que a contragosto aceita ser fotografada “porque não estou bem vestida, a minha casa é mais lá em cima, do outro lado”.

“Morar aqui não é fácil. Todos os dias entregamos a vida na ponte de cordas do Rio Dange, só Deus é que sabe…”, confessa com uma amargura ressequida pelo tempo, enquanto se preocupa, uma e outra vez, pela perspectiva de aparecer no jornal com uma roupa “que não era bem a que eu queria”.

Agrada-lhe a ideia de contar tudo ao jornalista, sorri como quem o faz para triunfar antecipadamente sobre a tristeza que sabe que chegará com o cair da noite, à espera de uma nova travessia arriscada. Vai levar até Cantoneiro 10 kg de bombó para trocar por 1 kg de sal.

Ainda há dias lá esteve, para conseguir a barra de sabão que lhe salva a roupa da sujeira que a lama, o pó e o suor deixam, exercício no qual teve de se desfazer de uma banheira de bombó. “Há vezes que até damos duas banheiras de bombó para uma barra de sabão, isso depende de como os dias estão”, precisa.

 

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