
Se propuséssemos ao leitor pegar numa caneta e numa folha de papel para desenhar o símbolo cheio de arabescos associado às composições de música, estaríamos a fazer uma analogia com o percurso de Djeff . A vida do apresentador deu tantas voltas como a sua tentativa de esboço de uma clave de sol.
Ele circundou, contornou, andou às voltas, mas acabou por sobressair entre as várias linhas que desenham as pautas de música. Em criança sonhou ser cantor, mas a sua voz, ainda indefinida, fez acordá-lo para outra realidade. Pegou, então, na guitarra, mas os mesmos dedos que se queixaram das dores de a tocar puseram-na de lado. Depois, teve uma paixão pelo piano — o amor não foi correspondido. A sintonia desta vontade de se aliar à música acabaria por chegar no casamento perfeito que reunia todos estes gostos pelas várias sonoridades. As pistas de dança, como DJ Djeff . E a percorrer estas pistas, ele viu abrirem-se novas portas, tal como a de apresentador do programa que acede aos pedidos da música do público e os retribui com os videoclips Made In Angola.
Assim estava predestinado o futuro de Djeff , quando ainda respondia apenas pelo nome de Tiago. Ele, que há 25 anos herdou a sedutora combinação de um ADN que juntava o progenitor cabo-verdiano, da Ilha da Praia, a uma mãe angolana, de Malange. Filho de um amor sem fronteiras, nascido da diáspora em Lisboa, Portugal, Tiago foi o segundo fi lho, a segunda geração de emigrantes que longe procuravam um futuro melhor. Tiago cresceu rodeado de um rol de ofertas cosmopolitas nos arredores da capital portuguesa. A escola era apenas a obrigação deste catálogo de promessas extra-curriculares. “Os professores diziam que eu era bom aluno, embora muito distraído. Eu safava-me sem estudar”. A verdade é que no top das suas preferências estava o gingar do corpo. Com a bola nos pés ou com a música nos seus ouvidos. E ainda antes de completar uma década de vida, a música soou tão alto, que ele a fez ecoar pelas casas de todos os portugueses, no seu primeiro sucesso frente às câmaras de televisão.
Foi um programa que marcou a história da televisão em Portugal e, deixou marcas na história de vida de Tiago. Chamava-se Mini Chuva de Estrelas e levava a palco as mini-crianças a imitarem os adultos-estrelas. Tiago, claro, quis ser a cópia perfeita e reduzida de Michael Jackson, mas a sua irmã insistiu em algo mais original. Trocou-lhe as voltas, as coreografias e os trejeitos, e em vez de Michael Jackson imitou outro Michael, o Bolton. O “plágio” foi tão perfeito que foi eleito vencedor. Ganhou uma taça “que ainda está no meu quarto”, a sua primeira aparelhagem, um órgão e o incentivo para fazer mais, para continuar. No seu metro e meio de gente ganhou, também, os primeiros segundos de fama que as 3 e 4 horas de treinos diários intensos compensaram. Tiago era uma pequena estrela de palmo e meio. E foi com este estatuto que primeiro visitou a terra de sua mãe, Angola. Não veio com os flashes dos fotógrafos nem a passadeira vermelha na chegada ao aeroporto, mas com a cassete VHS debaixo do braço. A plateia de fãs que, no Kinaxixe, assistiam ao vídeo da vitória do concurso em Portugal veio a seguir, na apresentação em diferido para a Angola que agora conhecia.
Estávamos em 1994 e Tiago assistia, ao vivo e a cores, à cultura da qual já era íntimo. “A família da minha mãe sempre foi aquela que teve mais power”. No seu álbum de recordações estão as primeiras lembranças, os fi ns-de-semana desta família unida, a conviver em redor do funge. Visitar Angola era o prolongamento destas reuniões. Um sonho realizado aos 10 anos, com bilhete de regresso para as aulas em Portugal, para as novas incursões por novos instrumentos musicais e para fi gurações em anúncios e novelas como os Morangos com Açúcar. E claro, para a família angolana, que também era o seu grupo de melhores amigos. Os primos, que apenas com 14 anos o levaram ao baptismo das matinés das discotecas juvenis. As luzes da pista de dança acenderam-se. Sobre a cabeça de Tiago fez-se luz. Este era o seu mundo. Tornou-se repetente. Assíduo. Insistente. Ele era o miúdo que todos os fi ns-de-semana estava na discoteca para satisfazer a sua curiosidade. Um aluno que observava e pedia apontamentos aos DJ, ou as faixas de música, para fazer os seus trabalhos de casa, nas primeiras apresentações para as festas da família.
A música estava colada no seu corpo como tatuagem para a vida. Tiago cresceu a par e passo com esta vocação. Terminado o 12.º ano ainda ponderou esta via profi ssional, mas a escolha das disciplinas empurraram-no para outro futuro, as Artes Gráfi cas. Pelo meio visita Angola uma segunda vez, em idade maior, num tempo alargado de seis meses. Mas regressa para as mesas da escola e pistas de dança lusas. Foi DJ, foi estudante, foi DJ e estudante, foi apenas DJ. Gozou as luzes da ribalta que o levaram a trabalhos por Portugal e estrangeiro, e gostou do som do tilintar do dinheiro que permitia a um jovem ter o seu carro, roupa e vontades próprias. “Sou muito vaidoso, posso dizer que gasto muito dinheiro em roupa e calçado.” Mas no coração de Tiago, este curriculum com os carimbos de múltiplos clubes, rivalizava com as saudades dos seus primos, agora em Angola, e dos novos contactos que lhe davam a oportunidade de produzir a sua própria música. O regresso era iminente.
Disse Adeus a Portugal, Olá a Angola em Junho de 2008. Uma semana depois foi convidado para tocar no Chill Out. Três meses depois para trabalhar na TV Zimbo. Entretanto chega o programa na Rádio Escola, com Cool Klever e Lukenya Fortunato. Com a griff e Djeff , entra neste ritual dos DJ terem o nome de guerra, que leva à sobrevivência apenas aqueles que saltam do escuro da noite para a luz da ribalta. Este é um mundo competitivo e a agenda cheia fá-lo já vencedor. A face mais visível é o Made In Angola, programa da TV Zimbo pelo qual dá a cara. “A sensação de que nos estão a observar” é a maior semelhança entre o estar no alto do pedestal a tocar para a multidão e o falar para as câmaras. Um sentimento que viveu no dia da sua estreia.