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    Made In Angola

    Duração:
    1 Hora.
    Horário:
    Semanal, exibido aos Sábados às 19H30, com repetição à Segunda-feira às 12h05

Made In Angola

Kristo

Por um país mais justo

Músico, compositor, autor de Ngaxi

 
Por um país mais justo

Kristo é um dos artistas mais importantes da nova geração. O sucesso entrou-lhe pela porta com Ngaxi. Agora acaba de lançar o seu primeiro álbum. Alinha pelo semba e assume-se como um músico de intervenção social. Sem receios ou rodeios. Quer uma Angola mais solidária

Resolveu que queria ser artista. De uma forma natural. “Sempre gostei de cantar. Entrei na música não por que queria fazer dinheiro, mas porque sempre amei esta arte”, começa por nos dizer Kristo, que recorda, “A música sempre me seduziu. Foi por isso que depois de estar sempre a cantar pelos cantos da casa decidi entrar no grupo coral da igreja católica, por volta de 1996, e dois anos depois, na altura em que o rap era uma moda e seduzia todos os jovens da minha geração, senti que precisava de algo mais. A igreja alimentava a minha alma mas o meu espírito de revolta estava a crescer, a minha sede de querer participar e compreender melhor a vida levou-me ao rap”.

A conversa corre simples. “Na altura estava encantado pela filosofia do grupo filhos da Ala este cujo objectivo era similar ao da primeira geração da literatura angolana. A “geração mensagem” que queria retornar às nossas raízes, tal como o fizeram grandes homens como Agostinho Neto, Viriato da Cruz ou António Jacinto, com o lema “Vamos descobrir Angola”. Talvez daí tenha emergido o meu espírito interventivo”.

Neste grupo encontra algumas respostas para esta sua ansiedade. “Naquele grupo o principal objectivo era evitar a alienação e mergulhar na nossa cultura, nos nossos valores, na nossa história. Éramos obrigados a ter contacto com obras literárias de escritores angolanos como Uanhenga Xitu, Pepetela, António Jacinto, Manuel Rui entre muitos outros”, explica-nos o artista, acrescentando, “Filhos da Ala era um grupo de jovens que usava como principal meio de comunicação a caneta, o papel, onde registávamos as nossas alegrias e frustrações como angolanos, onde nos animava as actividades no bairro Nelito Soares”.

Deste tempo fica uma boa experiência. Tempos em que a cultura e o conhecimento substituíam os ventos da marginalidade que normalmente correm nesta idade. “Gostei da experiência porque enquanto nos reuníamos para conhecer a nossa cultura e discutir os problemas sociais com base nas ideias que tínhamos, outros jovens faziam correr a sua energia para coisas más, formando gang´s ou outras coisas”, revela de forma séria. “Eu não posso esconder a influência positiva que teve em mim a passagem pelo grupo de rap ou RNB soul e, penso até que um dia poderei fundir vários destes estilos. E também o semba. Certamente que há uma influência de todos estes estilos na minha música”, acrescenta ainda.

Experiência

Desde muito cedo que a sua vida esteve ligada à musica. Foi em muitas salas e em muitas ocasiões que percebeu o que seria a sua vida no futuro. “Na altura fazia muitos coros pois sempre tive jeito para o canto. Fazíamos aparições públicas, quer no Cine quer no Kilamba, aqui em Luanda. Até que em 2002 fui para o Lubango para ingressar no ensino médio, onde frequentei as aulas no curso de Ciências Sociais porque era muito dificil fazer o curso cá. Fiquei lá durante 4 anos mas nunca deixei de compor. Aproveitava os tempos livres para fazer música. Quando regressei à capital fui músico de bar. Ela sempre me acompanhou”, esclarece.

Mas os tempos não eram fáceis. A capital tornava-se uma cidade consumista, onde a concorrência passava por cima dos valores pessoais. Era difícil impor-se não estando do “lado certo” da sociedade. “Quando regressei do Lubango cantei em um bar no Kinaxixe, não me lembro do nome, mas na altura actuava ao lado de um amigo meu, o Bigão. Que tem muito jeito para tocar guitarra. Inclusive tocou duas músicas no meu álbum. No mesmo bar onde eu cantava as minhas músicas sem remuneração, passavam artistas já consagrados como a Margaret de Rosário e o Kelly Silva. Não sei se o Kelly ainda se lembra, mas uma vez fui ter com ele e disse lhe que um dia atingiria o mesmo patamar que eles, que era a profissionalização”, lembra com um sorriso que não esconde a emoção.

Quanto à “herança” da veia musical Kristo diz que “eu penso que no seio familiar esta veio da minha Avó que sempre cantou. Acredito que tenha sido ela a minha principal influência. Aliás, na família, a minha avó não influenciou só a mim, mas também à minha sobrinha que também canta perfeitamente, e ao meu primo Camilo.

Ngaxi

Por vezes a vida dá o empurrão necessário ao talento para que este se afirme. E quase por acaso, a vida muda e os sonhos realizam-se. “Quando regressei do Lubango tentei encontrar outro emprego mas não consegui. Continuava ligado à música. Um dia fui visitar um amigo de longa data, o Dj Ângelo, que me perguntou se ainda tinha a capacidade de improviso dos velhos tempos. Eu disse que sim e ele desafiou-me a cantar em cima de um instrumental que tinha acabado de produzir. Eu escrevi no momento, em 15 minutos, e surgiu a letra de Ngaxi. Gravámos a música no improviso. Cheguei até a dizer-lhe, “meu, volto daqui a mais alguns dias para gravar a parte que falta”. Sentia que a música estava incompleta. O Dj Ângelo concordou”, recorda Kristo sobre o tema que o lançou e, uma das músicas de maior sucesso dos últimos anos no nosso país.

Kristo continua a contar a história. “Quando voltei a casa dele no dia combinado, ele estava ocupado. Na semana seguinte um outro amigo disse-me que havia gostado muito de uma música minha que tinha ouvido no táxi. Eu fiquei espantado porque não tinha gravado nada. Mais tarde vieram várias pessoas conhecidas felicitar-me e dar-me os parabéns. No início não estava a perceber nada”, ri-se o músico.

Sucesso

Bem-disposto, confirma que o sucesso lhe entrou pela porta sem ter muito tempo para respirar. “É engraçado que a fama veio ter comigo sem que eu esperasse, pois muita gente já cantava a música antes do dia em que consegui voltar a contactar o Ângelo. Nunca cheguei a gravar a parte que faltava. Ele já havia misturado a música e posto a tocar. Para ver como as coisas são engraçadas, a música que fez um enorme sucesso. Ngaxi foi posta a tocar sem que eu me apercebesse”, revela.

“E foi esta música que fez de mim famoso. Daí que aprendi que a primeira coisa que tem que aparecer é a música e não o artista. É através da qualidade do que fazemos que poderemos ser conhecidos. Eu ainda reclamei com ele porque a música estava incompleta, mas ele disse-me que era o produtor e, que aquela música ajudar-me-ia a ser reconhecido”, diz com um ar mais sério, reforçando, “o prestígio do artista está na qualidade da obra que consegue fazer. Por isso preocupo-me mais em dar uma forma quase perfeita ao trabalho que faço e não com a imagem, como acontece com outros artistas. Só não apareci mais cedo por isso. Porque procurava aperfeiçoar-me de modo a mostrar o meu verdadeiro valor”.

Ser Profissional

“Eu sempre me preparei convenientemente para aparecer. Buscava a maturidade suficiente para um dia chegar a um nível profissional, ou seja, procurava sentir que a música era a minha profissão. Para mim um cantor profissonal é como um médico ou um professor, tem que ter vocação e sentir-se como tal”, defende.

Com um mercado pequeno, ser profissional da música em Angola não é muito fácil. Mas para já as coisas estão a correr bem. “Recordo que ainda sou um estudante que interrompeu o seu ano lectivo. Mas vivo só da música. O pouco que tenho, que ganhei, veio da música. Penso em música de manhã, à tarde, à noite. Em todo o lado conhecem-me pela música”, explica, acrescentando de forma objectiva, “este sucesso foi acidental. Queria gravar primeiro as músicas todas e depois explorá-las de forma tranquila. As pessoas têm a tendência em apreciar apenas uma ou duas faixas do CD. Muitas destas letras que estão no álbum já eram conhecidas dos meus amigos e, tive receio que isso pudesse perigar o projecto”.

Na verdade, Ngaxi foi um estrondoso sucesso, o que colocou a fasquia muito alta na altura em que iniciou a gravação do seu primeiro disco. Não apenas para o público, mas também para os músicos que iam trabalhar consigo. “Há medida que fomos gravando, as músicas foram fazendo sucesso entre a banda. As pessoas foram ganhando confiança no meu trabalho, o que é muito importante. Eu também não queria desiludir aqueles que acreditaram em mim. Para já o disco foi bem recebido e há duas músicas que começaram a tocar com alguma frequência nas rádios. Esse é sinal que o trabalho tem alguma qualidade. Quero que o CD fique um, dois ou três anos a passar, que toque. Ambiciono que daqui a alguns anos as pessoas tenham a minha colecção e, ao ver o meu primeiro disco, sintam que é um bom trabalho. Quero orgulhar-me do que fiz no passado, porque sei que em termos rítmicos e sonoros, isto não será o que farei amanhã”, diz-nos de forma convicta. Diga-se que mais de noventa por cento das músicas que estão no primeiro CD de Kristo já têm mais de 10 anos de existência.

Olhar Crítico

Influenciado pelos seus tempos do rap, as letras das músicas assumem um tom crítico, retratam situações do dia-a-dia que marcam a vida do artista. Muitos apontam ao músico o facto de as suas palavras retratarem a posição, a figura e as motivações das mulheres de forma muito negativa. Kristo explica. “ Eu aconselho as pessoas a ouvir bem o disco. Tem 14 músicas e destas, seis falam bem das mulheres. Eu respeito muito a sua coragem e determinação. O que acontece é que as músicas que fazem mais sucesso são as que eu falo dos aspectos negativos. Entristece-me o facto de algumas pessoas tirarem uma ilação negativa das minhas músicas, como se eu quisesse denegrir a imagem da mulher. Isso não é verdade”.

E continua a expor a sua ideia: “Eu não sou uma pessoa só positiva. Há aspectos negativos na sociedade e eu canto essas realidades da vida social. Escrevo tudo o que vejo, como uma forma de chamada de atenção a alguns comportamentos. Por exemplo, o Ta sair bem, o Ngaxi e o Trambiqueiro, mostram pessoas que não se preocupam com a sua formação. Acham, portam- -se, vivem de forma muito efémera. E também é verdade que a voracidade de algumas mulheres, que não se cultivam, adolescentes que não dão tempo a si próprias para crescer, estão por todo o lado da nossa cidade. São mulheres que não se dignificam e que não se respeitam. Há também muitos homens que não lutam para conseguir o que é seu”.

Participar

O artista não se deixa abater com estas críticas. Tem as suas ideias muito claras e quer participar na evolução da sociedade. Sabe que a música pode ser uma arma. E quer usá-la de acordo com os valores em que acredita. “Eu tenho sobrinhas e não gostaria que elas vivessem esses maus exemplos que canto. Tento mostrar que o futuro começa hoje e, é necessário construí-lo com bons valores. É preciso batalhar por uma vida melhor. Eu perdi o meu pai muito cedo e nunca me rendi. O facto de vir de uma família humilde, da minha mãe ser quitandeira, não faz com que me tenha rendido. Eu não me entrego. A partir do meu talento e daquilo que faço bem, quero viver disso com dignidade”, diz-nos de forma directa.

Não esconde a sua origem nem o seu caminho. “Sou do bairro, sou do musseque. E vejo estas coisas todos os dias. Miúdas de catorze anos a engravidar por falta de educação e conhecimento. É importante haver diálogo entre pais e filhos, as novelas e a internet trazem-nos valores alheios à nossa cultura e, infelizmente, os adolescentes pegam os aspectos negativos. Não vale a pena fazer de conta que estas coisas não existem. As raparigas nas discotecas envolvem-se sexualmente sem conhecer o parceiro, sem saber as implicações e sem responsabilidade. Expondo-se a doenças sexualmente transmissíveis, gravidezes precoces, etc. Li uma vez uma revista vossa onde uma senhora da OMA falava de mulheres jovens adolescentes perdiam a fertilidade e, isso entristece-me”.

Não tem dúvidas face ao país que vive. Faz uma análise directa sem se esconder. Não de forma depreciativa, mas realista. “Eu penso que falta equilíbrio na nossa sociedade. É necessário mais cultura, mais debate, mais palestras, mais participação na vida social e política. Mais consciência de cidadania. Sei que viemos de uma guerra, estamos numa fase de reconstrução, até mesmo, como se diz, do tecido social. E isto para mim é prioritário. Daí a minha preocupação com estes temas. Eu considero-me um músico de intervenção social porque sou angolano e, não me posso alienar dos problemas do meu país. Quero contribuir e é só por isso que escrevo sobre estas circunstâncias”.

Raízes

Quando se fala de música tradicional, Kristo não esquece que é necessário tratar bem das nossas raízes. “É importante que se valorize mais a nossa música, o nosso semba, o nosso kilapanga. A música angolana de ontem não é a música de hoje. Ela evolui mas considero importante a sua valorização. Não é só olhar para quem “bate”, é também explorar os nossos ritmos, desde a busca dos sons desconhecidos até à incorporação de instrumentos modernos. Já temos mais músicos jovens a cantar semba como o Yuri, o Helvio , o Heavy C.”, explica, reconhecendo depois a importância dos mais velhos, “mas devemos essa valorização a cotas como o Paulo Flores, Carlos Burity ou o Eduardo Paim, pois na época em que os cotas cantavam semba, nós, os jovens, cantávamos outros estilos”.

Perfil

  • Nome: Kristo José Pombal
  • Idade: 27 anos
  • Naturalidade: Bairro Nelito Soares em Luanda ( na banda onde tem quissangua gingumba com bombo). Sou o mais novo de nove irmãos
  • Hobbies: Gosto de ler, principalmente literatuar angolana
  • Livros: O Ano do Cão, de Roderick Neone, Manana, Mestre Tamoda e o Ministro de Mendes de Carvalho
  • Artistas: Em Angola gosto muito do Carlos Buryty, Paulo Flores, Dj Mania. No estrangeiro, Michael Jackson
  • Clube: Primeiro de Agosto, F. C. Porto e Barcelona
  • Qualidade: Simplicidade. Não mudei o meu caracter nem a forma de ser. A fama não fez a minha cabeça. As pessoas que têm receio de me procurar, podem fazê-lo sempre. Sou o mesmo
  • Defeitos: Teimosia
  • Prato preferido: Feijoada
 

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