
Andam nestas coisas da música há mais de 15 anos. Foi no ano de 1994 que apareceram os N’Sex Love, uma banda que para a altura veio abrir uma nova página na música que se produzia em Angola. Misturavam os sons da música electrónica com os acordes acústicos das guitarras. Procuravam um caminho que eram resultado da experiência de cada um deles.
Gunza e João Paulo mais do lado da música programada, Walter e Bigú junto ao som das guitarras. “Eu e o João Paulo éramos amigos desde a juventude. Do Bairro Azul, do skate, das brincadeiras da altura. Sempre tivemos um gosto especial pela música. Foi assim que crescemos”, começa por nos dizer Gunza Joz, que acrescenta, “Foi já nos N’Sex Love que conhecemos o Walter e o Bigú, sendo que percebemos que tínhamos ideias similares na forma como olhamos para a composição musical”.
Diga-se que o surgimento dos N’Sex Love aconteceu numa altura em que apenas o Semba enchia os ritmos do país. Foi uma “lufada de modernidade” na cidade, um fenómeno que rapidamente teve a aderência de muita gente. “O primeiro álbum foi muito bem recebido. As pessoas gostaram e compraram. Também fizemos vários espectáculos e habituaram-se à nossa música. Ainda hoje quando algum destes novos grupos faz algo parecido, as pessoas identificam como sendo o nosso som”, acrescenta Bigú Ferreira.
Walter Ananaz acrescenta ainda: “Como somos músicos há muito tempo já somos reconhecidos pelo mercado. Tivemos a sorte de implantar um estilo, de ter uma sonoridade própria. Existem muitos que não o conseguem. Isso foi muito positivo porque pode ajudar a dar-nos uma identidade própria. A nossa visão sempre foi fundir as diversas influências e os diferentes estilos. Por exemplo trouxemos as guitarras distorcidas para o zouk. Tudo que vamos fazendo é fruto da nossa investigação. Existe uma ponte enorme que liga toda a música”.
Nessa banda existe um imenso desejo pelo conhecimento, que faz com que estejam atentos ao que vai acontecendo nos diversos países. Nesta altura, finais do anos noventa, em todo o mundo assistia-se a uma alteração da sonoridade da música “dançável”. Esta realidade influenciou alguns projectos.

Naturalidade: Luanda
Músico preferido: Depende do momento. Nesta altura estou a ouvir John Legend
Perfume: Estou a usar o Ázarro
Clube: 1º de Agosto
Hobby: Jogar futebol. Jogos de vídeo (Nintendo Wii)
Virtude: Ser apegado à família
Defeito: Ser indeciso
No final de 1998 surgem os O2 resultado da saída de um dos elementos dos N’Sex Love, “trocámos o nome porque era ele que o detinha. Apesar de ser um período turbulento, nós já tínhamos um nome e uma história no mercado. De entre os muitos nomes que na altura apareceram como hipótese, escolhemos este porque é oxigénio, é vida. E na verdade era assim que nos sentíamos. Com vontade e motivados para os muitos projectos que tínhamos na cabeça e que queríamos concretizar”, explica Bigú Ferreira.
Pode dizer-se que o ao nível da sonoridade o projecto estava consolidado e, por isso, havia a necessidade de fazer a transição do nome de uma forma que fosse perceptível para os seus fans. “Por isso escolhemos como título do primeiro álbum dos O2 o nome Bye Bye N’Sex Love. Era facilmente identificável com o tipo de projecto que tínhamos desenvolvido até aquela altura. Esta passagem acabou ser tranquila, embora pela importância que teve na altura, ainda existem alguns que nos associam primeiro aos N’Sex Love”, diz-nos divertido Walter Ananaz.
No seguimento da sua carreira os O2 lançaram depois o álbum Hot Style e, recentemente colocaram no mercado o single promocional La Défence, que abre a porta ao próximo álbum, que ao que nos disseram, já está pronto. “Na verdade ainda não sabemos quando sairá. Estamos a tratar de uma série de questões que têm a ver com a própria organização e comunicação do grupo, que de acordo com as decisões tomadas, então poderemos saber de que forma e quando o álbum será lançado”, confirma-nos Bigú Ferreira.
Entre os diversos marcos da carreira do grupo, para além de alguns espectáculos que consideram memoráveis, destacam a nomeação para o MTV Europa. “Isso aconteceu quando a gala se realizou em Portugal. Nesse ano fomos nomeados na área dos grupos africanos para a categoria de “Melhor Voz” e “Melhor Música do Ano”. Tendo em atenção a concorrência que existia e a universalidade deste concurso, é algo de muito importante e que ficará como um dos marcos mais importantes da nossa carreira”, explica Gunza, que acrescenta quando lhe perguntamos se são mais uma banda de estúdio ou de espectáculos ao vivo, “na verdade gostamos muito do trabalho de estúdio. De compor e trabalhar as músicas, produzir exactamente o som que queremos. Mas também gostamos muito de actuar ao vivo. Somos quatro e penso que cada um tem a sua opinião sobre isto”.
Naturalidade: Namibe
Musica preferida: Do kilamga, kizomba, semba, zourk, r&b, rock, rap, samba, jazz ao tchissosse. O que é sensível ao meu ouvido, congratula-me profundamente
Hobby: Cinema, leitura e viagens
Virtude: Amar, amar, amar…
Defeito: Teimosia
João Paulo acrescenta que “este álbum foi gravado em França. Isso tem muito a ver com os músicos e os produtores disponíveis de acordo com o tipo de som que queremos obter. Por exemplo, em Angola não há guitarristas. Os baixistas, de acordo com o que o procuramos, devem ser franceses ou americanos. A nossa música é de cariz universal, por isso é normal que procuremos gravar com os que consideramos melhores. Somos cidadãos do mundo. Também não há produtores com um trabalho ao nível do que se faz lá fora”. Neste aspecto há que referir que em termos de estúdios há uma grande evolução em Angola, embora quase todos reconheçam que ainda não há músicos especializados de estúdio, como acontece em muitas cidades da Europa.
Sobre o processo de criação, Gunza explica que “na maior parte das vezes as músicas são compostas em instrumentos acústicos e depois programadas. Mas também acontece o contrário”
Hoje a música dos 02 é tocada em outros países, nomeadamente Portugal, Brasil e França. A internacionalização é um dos objectivos do grupo, que como nos referem, “quando compomos não estamos a pensar no mercado angolano, mas no mundo”.
“O nosso mercado é pequeno. Naturalmente que queremos internacionalizar a nossa música. Mas a verdade é que os outros países não se conquistam pondo lá os discos e pronto. E depois esperar que vendam. As coisas não funcionam assim. É necessário estar com editoras que conheçam os mercados, perceber como funcionam os mecanismos de comunicação e marketing. Ao longo dos anos, alguns dos músicos angolanos não têm tido sucesso em outros países, porque se ligam a instituições que lançam os discos e não fazem mais nada”, refere Walter Ananaz.
Internacionalizar a imagem dos grupos é o primeiro passo para se ter sucesso em outros mercados. “É preciso estar nas revistas, na televisão desses países. Naturalmente que precisamos do mercado angolano, mas temos que estar atentos ao que podemos fazer em outros países. Quando lhe falo em estar atento significa entender quais são as nossas mais-valias além fronteiras. Perceber que mercados e que países podem estar mais próximo daquilo que fazemos”, reforça Bigú Ferreira.
Neste esforço de internacionalização também é necessário que os melhores artistas façam projectos comuns. Tal como aconteceu no Brasil nos anos oitenta e noventa e, que foi feito recentemente por Paulo Flores ou Yuri da Cunha. “Como em todos os meios existem músicos por quem temos simpatia, outros que trabalham mais perto de nós, mas não existe muito essa mesma prática que acontece no Brasil, em que os músicos cantam as músicas uns dos outros, que compõem uns para outros. Existem alguns casos, mas não é uma prática comum”, explica Gunza.
Para João Paulo, “os músicos muitas vezes frequentam os mesmos locais, mas não partilham os mesmos interesses. Depois também há algumas desconfianças e muitas vezes estamos mais preocupados com quem fez o quê. Na verdade penso se, por exemplo, um é mais forte na feitura de letras, independentemente do projecto ou do grupo onde está, porque não fazer as letras para outros músicos? A nossa classe não é muito unida”.
João Paulo RebôchoNaturalidade: Luanda
Artista preferido: Michael Jackson
Hobby: Jogar PS3, conversar em chat, criação de animais domésticos e pesquisar na net
Virtude: Praticar o bem e amar ao próximo
Defeito: Ser pessimista
O músico acrescenta ainda: “O que faz verdadeiramente falta no nosso meio musical são empresários. Pessoas que peguem nas nossas músicas e se preocupem em promover espectáculos, gerir a imagem, procurar mais--valias para cada projecto. Em Angola é o músico que faz isso tudo. Quando na verdade deveríamos estar concentrados em produzir o melhor possível e não preocupados com isso. A internacionalização da música angolana também passará muito pela existência de bons empresários. Pelo menos esta é a minha opinião”, defende.
Neste aspecto saliente-se, por exemplo, a música cabo- -verdiana, tem conseguido reforçar a sua implantação em outros países. “Eles têm uma editora que foi fundada pelo Estado, neste caso o Ministério da Cultura, que se ocupa da internacionalização dos seus artistas. Isso seria um caminho interessante para os angolanos. Se não há nenhum privado com interesse em dar esse passo, então que o público trate disso. Veja-se a importância que a música tem hoje na divulgação da cultura e da imagem de Cabo Verde. Essa é uma mais-valia muito importante”, defende Walter Ananaz.
Será necessário também existir outra dinâmica para que os músicos possam viver exclusivamente da sua arte. Este é um pressuposto importante para que a qualidade aumente. “Quando oiço falar de músicos que vivem exclusivamente da música, com excepção por exemplo de Paulo Flores, tenho alguma dificuldade em aceitar. Na verdade há momentos e alturas em que se pode ganhar bem, mas isso passa. Manter isso durante vários anos, não me parece que seja possível com a organização que temos no nosso meio musical. Por exemplo, não é possível fazer um número espectáculos por ano que justifique dizer que se vive da música. No nosso caso temos outras actividades, e, nós somos do que são conhecidos. Como já referi, o nosso mercado é pequeno”, diz Gunza.
Gunza JozNaturalidade: Luanda
Música: Depende do momento. Nesta altura estou a ouvir Godspel
Perfume: Chanel
Clube: Petro Atlético de Luanda e F. C. Porto
Hobby: O cinema é o meu passatempo preferido
Defeito: Teimosia
Virtude: Ser amigo dos meus amigos. Gosto do que faço
A enorme diferença entre ser profissional da música ou apenas músico pode levar a que muitos jovens talentos acabem por sair deste meio. Ao longo dos anos temos assistido a alguns casos, pelo que é necessário perceber o que está em causa para que isto aconteça. “Nós aqui fazemos tudo. Enquanto músicos temos olhar para todas as vertentes. Naturalmente que isso pode cansar. Mas quando gostamos de música acabamos por ficar neste meio, independentemente das condições e das dificuldades”, acrescenta bem-disposto.
Para que o desenvolvimento se faça, em termos internos ou externos, é necessário também que os artistas tenham algumas condições. Como foi referido, que se concentrem apenas na sua arte, “por exemplo existe um pormenor que os muitos músicos cabo-verdianos beneficiam, o passaporte diplomático, que permite deslocações simples e rápidas a outros países. E isso é muito importante na nossa actividade”, lembra João Paulo.
Discos publicados
Como N’Sex Love: Loucura, Loucura Remix
Como O2: Bye Bye N’Sex Love, Hot Style, La Defense