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    Made In Angola

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    Semanal, exibido aos Sábados às 19H30, com repetição à Segunda-feira às 12h05

Made In Angola

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Gabriel Tchiema, A voz da Lunda Sul

21-05-2009
 

O requinte da qualidade

Para muitos tem a melhor música do ano, “azulula”. Todos lhe reconhecem qualidade, bom gosto e um projecto musical, que apesar de não ser comercial, já o colocou entre os melhores. Um caminho que vai continuar a trilhar. Na defesa das suas origens.


Ele traz uma voz quente do Leste, das Lundas, assente em acordes fáceis e agradáveis, que destacam a musicalidade das palavras das nossas línguas nacionais. Em particular do Cokwe (leia-se Tchokwe), que aprendeu em pequenino e utiliza hoje quando se “refugia” na sua terra natal, para fugir à agitação da capital. “É muito importante manter o conhecimento das línguas locais. Se é no português que nos unimos todos, povos vindos de todas as regiões, é nas línguas locais que vamos buscar instrumentos para poder comunicar com os nossos ‘mais velhos’. Como é que eu podia falar com a minha avó se não soubesse Cokwe”, refere.

Nasceu no município do Dala, província da Lunda Sul, em 1966. Há 43 anos. Já foi refugiado na província da Zâmbia em 1968. Cumpriu o serviço militar até 1990 na região de Cabinda, onde deu os primeiros passos na música, co-fundando e integrando a banda ASP, com a qual ganhou vários prémios nos festivais militares. Mas Cabinda foi também muito importante para a sua vida pessoal. Foi lá onde conheceu e se apaixonou pela mulher da sua vida, mãe do seu filho, a actriz Raquel Dalomba, com quem vive até aos dias de hoje. Apesar do sucesso alcançado com os discos Nhena Nhi Nhami e Azulula, ainda não se sente realizado. Agora está chegado o momento de internacionalizar a sua música. Encara a criação de letras em línguas nacionais bem como a exploração dos ritmos tradicionais, como a melhor forma de valorizar a nossa cultura. “Uma vez que existem em Angola ritmos, tão ou mesmo mais agradáveis ao ouvido que o semba, não devemos esquecer o que se faz pelas províncias. O semba não e a única musica tradicional angolana”, lembra. Tem convicções fortes e sabe por onde vai evar a sua carreira musical. É hoje um dos melhores artistas angolanos.

Conte-nos um pouco da sua história.

Nasci há 43 anos no município do Dala, Província da Lunda Sul. Fui refugiado na vizinha República da Zâmbia em 68, devido à situação que o país atravessava. Voltámos depois à Lunda, onde fiz os meus estudos secundários. Em 1985 estava em Luanda em gozo de férias, ia a caminho do Huambo para ingressar o Instituto Médio Agrário, quando fui mobilizado para as forças armadas. Parei a minha formação, mas ainda hoje tenho como objectivo formar- -me. É um dos meus sonhos.


Foi destacado para aonde?

Fui destacado para a segunda região militar em Cabinda. Mas como acredito que Deus não faz nada por acaso, apesar de ter perdido a oportunidade de tirar um curso superior, foi lá onde comecei a dar os primeiros passos no mundo da música. Na altura integrava a par de alguns colegas da FAA, o Grupo musical ASP. Foi uma boa rampa de lançamento. E conheci a mulher da minha vida.


Quando foi que começou a carreira a solo?

A minha carreira a solo começou em 1990. Cumprido o dever militar fui desmobilizado. Comecei por participar em alguns festivais e concursos musicais até que em 1998 lancei a minha primeira obra discográfica intitulada “Nhena Nhi Nhami” e, em 2008 lancei a segunda, “Azwlula”, que traduzido do cokwe para o português significa “abre-te”.


Porque levou tanto tempo a lançar um disco?

Foram uma série de acontecimentos. Repare que quando fui desmobilizado estabeleci-me na província da Lunda Norte para refazer a vida, onde trabalhei durante algum tempo como gerente da Casa de Pessoal da Endiama na Lunda Norte. Em 1992 quando rebentou a “segunda” guerra civil no país é que tive de vir para Luanda. Na cidade ganhava a vida com biscates e só nos tempos livres exercia o meu amor pela música…


Tempos difíceis.

Claro! Na altura havia muitas dificuldades para se gravar um CD. Só em 1998, na sequência dos vários festivais e concursos em que participei, consegui criar condições para lançar o meu primeiro disco. As pessoas passaram a conhecer a minha música e as portas foram-se abrindo. Ganhei um top dos mais queridos e passaram-me a convidar para outros projectos. Trabalhei com vários músicos.


Sendo um músico do Interior, como foi recebido pelo meio artístico em Luanda?

Muito bem. Directamente nunca me fizeram nenhum comentário negativo. Não podemos agradar a todos, mas na generalidade só posso dizer bem dessa geração de músicos que estava em Luanda e, me recebeu como se fosse um deles.


É evidente que os seus discos tiveram bastante sucesso. Sente-se realizado?

Ainda não. Embora tenha de reconhecer que a vida artística não me corre mal, tenho de dizer que isso não me permite viver só da música. Mas um dia vai acontecer. O género musical que apresento também não é o mais comercial. Mas quero fazer o que gosto e por isso vou continuar neste caminho.


Isso não lhe acontece só a si.

Para os artistas que apostam na música tradicional, como o Felipe Mukenga, o Mito Gaspar ou eu, não é fácil viver só da música. Outro factor é o de a música cantada em línguas e ritmos tradicionais ainda não ser tão forte em vendas, quer no mercado nacional ou internacional.


Mas o Semba tem vindo a internacionalizar-se.

Apesar do semba ser reconhecido no país e além fronteiras, deixe-me dizer-lhe que Angola é tão rica em ritmos quanto em línguas nacionais. O semba não é o único ritmo tradicional com uma musicalidade surpreendente. Existem em Angola muitos outros ritmos que precisam ser explorados. Cabe-nos a nós, músicos tradicionais, divulgar esta riqueza cultural e contribuir para a sua emancipação. Porque há ritmos, como o cokwé, que ainda não são conhecidos.


Mas hoje começam a ser mais bem aceites pelo público...

Ainda existe pouca divulgação dos ritmos do Interior. Se não forem divulgados correm o risco de desaparecer. Como se nunca tivessem existido. Daí a minha prioridade à música tradicional. Quero com isto dizer que só me sentirei satisfeito depois de tornar a minha língua Cokwe, bem como outras línguas nacionais e outros ritmos, conhecidos a nível nacional e internacional.


O que pensa do facto da maioria dos brasileiros achar que a música angolana é o kuduro?

Aí está um bom exemplo. O kuduro merece o espaço que conquistou, mas como disse, é apenas uma das músicas nacionais e, na verdade, a que mais “nome”conquistou no mundo. Mas repito. Não nos devemos esquecer das nossas tradições. É importante que Angola saiba, por exemplo, que existe um mayeye em Cabinda e, se identifique também com este ritmo. A nossa riqueza cultural é sustentada pela diversidade de ritmos e línguas, e devemos mostrá-la ao mundo.


Acha possível levar a música angolana a cidades como Paris e Nova Iorque tal como ela é hoje?

Com certeza. Exemplos disso são músicos como o camaronês Richard Bonnert, o maliano Salif Keita ou a consagrada Cesária Évora. Fora de África também temos o turco Turkan, que viu a sua música tocar no mundo inteiro. Não precisou de cantar em inglês para internacionalizar a sua carreira. O Salif Keita, a Cesária Évora e o Richard Bonnert também não tiveram de deixar de cantar nas suas línguas e com os ritmos tradicionais, para terem a aceitação do público estrangeiro.


Existe apetência dos europeus e americanos para ouvirem outros géneros musicais?

Claro que sim! Aqueles que lhe falei fazem grandes concertos internacionais e são reconhecidos a esta escala. Isto leva-me a crer que é possível alcançar sucesso internacional com a música angolana, que recordo, não é apenas o semba e o kuduro.

Que importância atribui a músicos que cantam em línguas e ritmos nacionais?

Eu devo dizer que estes artistas são heróis, pois têm sabido trilhar o seu caminho e dar à música angolana um pouco mais de dignidade. Por divulgarem a sua beleza e harmonia, por introduzirem o ritmo dos tambores no dicionário da linguagem musical universal. Porque a música africana é muito rica e rítmica. É necessário que ajudemos a nova geração a interpretar a alma da nossa cultura


O que pensa da incorporação da música tradicional na dança contemporânea como o que está ser feito pela Ana Clara Guerra Marques?

Para mim acho fantástico. Sou a favor da fusão das diversas artes. As pessoas precisam de descobrir outras emoções. Está a traduzir o espírito de África. Aproveito a oportunidade para lhe dar os meus parabéns.


Os músicos dão-se bem?

Há muito respeito entre os músicos angolanos. Embora não exista grande união, em termos de cooperação, as relações de trabalho são saudáveis.

Observam-se poucos espectáculos individuais em Angola. A regra é juntar sempre seis, sete ou oito num mesmo festival. Que pensa disto?

Os músicos começaram a perceber que sozinhos não vão a lado nenhum. Daí a existência de muitos festivais colectivos e quase nenhum individual. Por outro lado, isso tem a ver com as empresas que preferem trazer vários cantores para garantir as receitas que permitam suportar as suas despesas. Mas isso origina um grande deficit. Também é necessário promover os músicos de forma individual. Se resulta com os estrangeiros, também resulta com angolanos. Os empresários precisam ser um pouco mais ousadas e apostar em shows individuais de cada músico ou cantor.

 

Os shows nas províncias precisam de ser apoiados?

Nesses locais as pessoas precisam de ver mais espectáculos. Nas províncias o público está carente de manifestações culturais. Mas hoje já há muito mais. Acredito que se esteja a caminhar neste sentido, com esta possibilidade de nos podermos deslocar livremente por todo o território. Em cinco anos já conquistámos coisas fantásticas… E temos um imenso caminho a percorrer nos próximos tempos.

Quantas vezes por ano vai à Lunda?

Não vou de forma periódica. Mas vou muitas vezes. Tenho lá a minha a família, em especial a minha mãe. Nasci cokwe e nada vai mudar isso. Na minha família ainda há pessoas que não falam português, o que faz com que estas viagens sejam uma excelente oportunidade de expressar-me na minha língua tradicional. A Lunda é muito diferente de Luanda. Sinto-me orgulhoso por ter nascido naquela região.


Uma vez que esteve dez anos em Cabinda, qual a influência da cultura cabindense na sua música?

Já cantei em fiote e falo essa língua. Não tão fluentemente como queria, mas o suficiente para comunicar com os naturais de Cabinda. Quando vou a uma região gosto de perceber como as pessoas são, como vivem e, aprendo sempre um pouco da língua. Sou influenciado pelo mayey, por exemplo. Para mim, o português é a língua que nos une a todos, de Cabinda ao Cunene. Mas é importante promovermos a língua nacional de cada região.


Considera-se uma estrela?

Acho que o facto de ter nascido no campo ou na cidade, por ser o Gabriel ou não, não me dá o direito de espezinhar quem quer que seja. Em Angola este comportamento altivo e arrogante é notório, principalmente naqueles que se acham famosos. Há muita gente que só pelo facto de terem um pouco de fama, acham que estão acima dos outros. Por exemplo, há pessoas que falavam comigo normalmente, até iam a minha casa colher alguma experiência, mas que bastou lançarem um CD e, hoje passam por mim na rua e nem sequer me cumprimentam. Se for este o sentido, não sou uma estrela.

Perfil

  • Nome: António Gabriel (Tchiema é o nome do meu avô, que devido as privações do tempo colonial, não foi aceite no registo)
  • Idade: 43 anos
  • Estado civil: Solteiro (vivo maritalmente com a Raquel há mais de 20 anos. Portanto, embora não me tenha casado no civil nem no religioso, eu considero-me casado)
  • Filho: Um. Fábio Euclides Barros Gabriel (já está com 19 anos)
  • Hobbies: Literatura (adoro escrever, talvez um dia publique algo), futebol, andar de bicicleta. Estou a fazer um curso de guitarra na Internet para aperfeiçoar as técnicas de execução
  • Livros: Admiro muito a obra de Uanhenga Xitu
  • Música: Lokua Kanza, Richard Bonnert (o meu sonho é um dia dividir o palco com ele) e Salif Keita. Em Angola, o Paulo Flores e o Rui Mingas
  • Filmes: Gosto dos géneros acção e drama. Fiquei muito bem impressionado com o filme Na Cidade Vazia de Maria João Ganga
 

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