• VER
     

    Made In Angola

    Duração:
    1 Hora.
    Horário:
    Semanal, exibido aos Sábados às 19H30, com repetição à Segunda-feira às 12h05

Made In Angola

Capa nº 27

Pedrito, um percurso 
de 40 anos

Músico, empresário, autor de “aleluia” e “avô bié” GALERIA em baixo

13-05-2009
 

Iniciou as comemorações do 40.º aniversário da sua carreira com um espectáculo na Casa 70. Segue-se, até ao final deste ano, o lançamento de mais um CD. Uma vida de músico que o levam a ser muito acarinhado pelos colegas e pelo público que sempre o acompanhou.

Natural do Bengo, José Manuel Pedrinho “Pedrito”, comemora este ano 40 anos de carreira. Que começou em Dezembro de 1969 pela mão do conhecido promotor Luís Montez. “De um modo global, foi uma carreira que teve altos e baixos, não foi possível viver sempre da música, sendo que as próprias convulsões sociais porque passou o país, não ajudou ao desenvolvimento de uma carreira uniforme. A guerra civil influenciou a vida de todos os cidadãos e, também a minha. Como a de tantos músicos que na altura da independência estavam a desenvolver as suas carreiras artísticas”, começa por dizer.

Em 1975 quando muitos portugueses voltaram para o seu país, as fábricas de discos e as editoras acabaram por fechar. De um momento para outro Angola ficou sem capacidade de gravar a “arte” dos seus músicos, desequilibrando o mercado musical. “Nessa altura todos nós vivíamos da música ao vivo. Era a única forma de ir mantendo o contacto como o público e dar a conhecer as nossas músicas. Cantava nos bailes das associações recreativas. Era também na rádio nacional que tocávamos e gravávamos as nossas canções. Fazíamos aparições na televisão pública. Foi um tempo em que era a música ao vivo que comandava as nossas carreiras, o que fez que durante muitos anos não tivesse gravado nenhum disco”, explica Pedrito.

Vida profissional

O músico também revela que nunca viveu exclusivamente da música, mantendo sempre outra actividade profissional. “Na altura da independência eu trabalhava na editora Electra, onde era director comercial. Com a saída das pessoas a empresa fechou, embora eu tenha mantido ligação a uma outra empresa, que era de um amigo meu e, onde eu tinha uma participação.

Nesta altura dediquei-me mais à música. Nesses anos ainda se circulava de carro pelas principais cidades de província e fazíamos muitas digressões. Na verdade foram tempos de grande criação artística, onde o ambiente que se vivia também estimulava as pessoas. Nessa altura fiz muitos espectáculos”, confirma o artista.

Curiosa a sua apreciação, quando nos diz que “que do meu PIB individual, direi que a música representa cerca de 40%. Sempre foi mais ou menos assim. Mantive sempre a minha actividade de gestor comercial, que me servia para equilibrar o orçamento familiar”. Logo a seguir á independência, Pedrito mantém-se a trabalhar na sua loja, que tem desde 1977, um estabelecimento comercial que manteve ao longo da sua vida.

Nesta altura também existia muita procura de músicos para espectáculos, o que dava aos cantores a possibilidade de terem um nível de vida acima da média da população.

“Para ter uma ideia, naquela altura o meu vizinho era chefe de departamento de uma grande empresa, no caso a Mercedes e, ganhava cerca de 35 mil kwanzas por mês. Por espectáculo eu recebia aproximadamente 75 mil Kz. Veja a diferença. Por outro lado também sempre tive uma vida organizada e fui capaz de orientar o que ganhava”, explica. A sua actividade como gestor comercial ajudou-o a gerir bem as suas finanças.

Apoio à Música

Dos anos 80 realça o trabalho do governo. “Havia uma política cultural que facilitava a vida artística. Os centros recreativos eram obrigados por lei a realizar espectáculos semanalmente, para receberem comida e bebida, sendo que também eram obrigados a ter música ao vivo. Isso permitia que os músicos tivessem trabalho e, foi decisivo no aparecimento de uma geração de profissionais que ainda hoje está a trabalhar”, diz Pedrito, falando das condições criadas para que os músicos levassem a sua arte a outras paragens do mundo, “nessa altura também se deu a minha internacionalização. Fizemos muitas digressões pelo mundo fora, países do leste europeu, mas também da Europa Ocidental. Lembro-me por exemplo do projecto Semba Tropical em Londres, onde para além de mim também participaram o Carlos Burity, a Dina Santos, o Carlitos Vieira Dias, etc. Nesta altura, a então secretaria do Estado da Cultura apoiava muito a música, sendo que não apenas internamente, mas também no exterior se queria mostrar a arte que se fazia em Angola.

Lá fora passávamos a nossa mensagem e havia uma política cultural muito bem estruturada. Foram tempos em que andámos a mostrar a cultura angolana pelo mundo. Mas também pelas nossas províncias”, recorda.

A seguir às primeiras eleições em 1992, depois de voltar a “estalar” a guerra civil, as condições de produção de espectáculos em Angola voltaram a diminuir. Durante algum tempo a movimentação das pessoas esteve limitada a Luanda, sendo que o acesso a outras cidades de província apenas se fazia por meios aéreos. As estadas para além de estarem degradadas, também não eram, em muitos casos, seguras. Por outro lado Angola começa a participar em grande eventos internacionais, o que fazia com que os artistas tivessem uma actividade que os “empurrava” muitas vezes para o estrangeiro.

álbuns e singles

É neste quadro que se desenvolve um movimento musical angolano em Portugal, onde estavam bastantes músicos do nosso país. “Surge uma dinamização importante da música angolana em Portugal. O maior responsável foi o Eduardo Paím, que dá uma reviravolta, no bom sentido, à situação dos músicos angolanos naquele país. Isso leva a que se criem condições para que muitos possam gravar os seus discos. Para além de haver uma procura da nossa música, também surgem editoras portuguesas dispostas a investir nos nossos músicos e nas suas obras. É assim que acabo por ir a Lisboa gravar o meu primeiro disco, Aleluia, em 1994”, explica Pedrito.

Apesar de muitos terem gravado discos, a verdade é que houve pouca divulgação e apoio. Por isso alguns não voltaram a repetir, preferindo passar mais tempo sem gravar até conseguirem condições consideradas como boas. O mesmo se passou com Pedrito. “Depois da gravação do primeiro CD, que foi resultado de uma parceria, não gostei da forma como foi divulgado. O projecto não teve o sucesso que eu esperava e, penso que uma das razões foi o facto de essas pessoas não conhecerem convenientemente o lobby musical. Isso reflectiu-se na forma como foi divulgado o trabalho, quer nas rádios quer junto do público. Foi isso que me levou a ser eu próprio a produzir os meus discos e os meus espectáculos”, explica.

Desde essa altura passou então a ser a Pedrito Produções a responsável pela gestão da carreira do músico. “Era uma empresa que já tinha há muito tempo. Como já referi dedicava-se ao comércio em geral. Vende um pouco de tudo. Decidi que era ela que passaria a pôr a chancela em todos os meus trabalhos musicais. Isto porque oresponsável da empresa, o Pedro empresário, não tem dificuldade em falar com o Pedrito artista”, diz bem-disposto, acrescentando, “nesta altura somos uma pequena produtora, não temos estúdio de gravação mas é uma questão que podemos resolver a médio prazo, estando também a trabalhar para outros artistas do mercado angolano. Estamos a desenvolver parcerias, que são uma forma de podermos ir avançando com este projecto”.

Foi assim que gravou o seu segundo álbum em 2003, Avô Bêa e o ano passado o single Mensagens de Amor, com cinco temas que falam da nova Angola que está a levantar-se, exaltando os valores da paz, solidariedade e do amor. “Gravar um disco é um grande investimento. Só depois de reunir o financiamento necessário de forma a fazer face aos problemas que se colocam na produção de um CD é que fui a Portugal gravar o trabalho”, explica Pedrito.

Quando lhe perguntamos se esta sua actividade de gestor influencia a sua carreira, não tem dúvidas. “Claro que sim. Dentro daquilo que é a gestão, temos que garantir o retorno do capital quando fazemos qualquer investimento.

O mesmo aconteceu com este espectáculo dos 40 anos de carreira que decorreu na Casa 70. Demorámos tempo a prepará-lo, criando as condições necessárias para garantir um retorno com estilo. Tínhamos que ter a certeza que o espectáculo iria mobilizar as pessoas e, de alguma forma, que havia interesse no que estávamos a propor”, afirma.

Espectáculo memorável

Este show foi um marco na carreira do músico. “Pode dizer-se que foi necessário alguma coragem para 40 anos depois avançar para um espectáculo onde estive em palco durante mais de uma hora, cantando mais de uma dezena de músicas. Isto porque as últimas vezes que estive em espectáculos foi para cantar 2 ou 3 músicas em concertos onde também participavam muitos outros artistas. Este espectáculo foi uma viagem que percorreu toda a minha carreira, recuperando temas antigos que as pessoas se habituaram a ouvir. E pelos vistos, que ainda gostam”, explica.

Houve também tempo para entre cada um dos temas se falar da história das canções e de Pedrito, daquilo que foi a sua carreira e a sua história, passando por várias décadas. Recorde-se que este espectáculo teve produção e organização da Pedrito Produções, em parceria com a Casa 70, envolvendo o músico directamente no sucesso do evento. “Não é fácil ter sucesso numa casa por onde já passaram todos os grandes nomes da música angola e muitos artistas internacionais. Por isso o desafio era grande”.

Foram seus convidados Margareth do Rosário e Carlos Burity, escolhas que são explicadas assim pelo artista: “ Na parte feminina, a Margareth do Rosário foi uma escolha de toda a equipa técnica. Ela é bonita, tem uma excelente voz e lançou recentemente um CD de grande qualidade. Temos que realçar o bom trabalho que tem feito na música angolana. No que se refere ao Carlos Burity, ele é indiscutivelmente um pilar da nossa música. Teve um percurso parecido com o meu. Sempre gostei muita da voz dele. Penso mesmo que num espectáculo de mais de uma hora com as pessoas a ouvirem-me, a sua colaboração serviu também para mudar de registo. Para dar outra dinâmica ao espectáculo. No tempo que esteve em palco Carlos Burity marcou essa diferença”.

Dentro da comemoração dos 40 anos de carreira, Pedrito prepara o lançamento de um novo CD. “Quero fazer um Best Of, que em princípio sairá lá para o fim do ano, no último trimestre.

Gravámos o espectáculo em áudio e depois veremos se existe a qualidade suficiente para aproveitar alguma coisa ou, se iremos regravar alguns temas. Neste CD vou juntar cerca de 20 músicas — aquelas que marcaram mais a minha carreira musical —indo ao encontro dos gostos do público. Será também a oportunidade de homenagear todos os que me apoiaram ao longo destes quarenta anos”, diz Pedrito.

A importância da igreja

Tal como outros cantores, Pedrito começou a cantar na igreja. “Como lhe disse nasci no Bengo. Antes de vir para a capital frequentava a igreja todos os domingos. O ritual religioso estava ligado à música e ao canto. Foi nessa altura que comecei a cantar. As pessoas gostavam da minha voz e foi assim que percebi que podia ter esta actividade. Era bastante aplaudido”, refere o músico, que acrescenta, “quando vim para Luanda continuei a frequentar a igreja e fui desenvolvendo este gosto. Por isso reconheço que a igreja foi muito importante na minha vida. Não só para o desenvolvimento da minha actividade, mas também para a solidificação dos valores que regem a minha postura. Deus sempre foi a minha crença. Sou católico”.

O próximo álbum No âmbito das comemorações dos 40 anos de carreira, Pedrito prepara o lançamento de um novo CD. “Quero fazer um Best Of, que, em princípio, sairá lá para o fim do ano, no último trimestre. Neste CD vou juntar cerca de 20 músicas — aquelas que marcaram mais a minha carreira musical. Algumas delas poderão precisar de ser regravadas”, esclarece o músico.

as origens do nome Pedrito

José Manuel Pedrinho é conhecido por todos como Pedrito. Uma alcunha que lhe foi dada pelo maior produtor de espectáculos da década de 60, Luís Montez, responsável também pelo aparecimento de inúmeros músicos angolanos, de onde se destaca o Ngola Ritmos. Ele explica: “O Luís Montez tinha um programa de grande impacto, que se realizava às quintas-feiras e, onde iam artistas consagrados. Na altura era o local onde também apareciam os novos valores. Lembro-me de um dia, tinha cerca de 15 ou 16 anos, ter ido falar com ele para cantar no show”.

Nesta altura Pedrito estava a dar os primeiros passos da sua carreira musical. “Quando lhe pedi para cantar a solo, ele questionou-me sobre a minha experiência. Expliquei a minha situação e propus-lhe que se só me pagava se as pessoas gostassem. Se me assobiassem não recebia, se me aplaudissem então pagava. E a verdade é que fui muito aplaudido”, recorda, acrescentando com uma gargalhada, “Ele perguntou-me qual era o meu nome artístico. Na altura todos tinham um. Disse-lhe que não tinha. Perguntou-me o meu nome e foi ele que avançou: “José Manuel Pedrinho? Como és novo, podes ser o Pedrito. Está bem?. Eu concordei. E a verdade é que o nome ficou até hoje”. Foi assim, de forma simples, que nasceu o nome de um dos músicos mais aplaudidos do nosso país.

O Próximo Álbum

No âmbito das comemorações dos 40 anos de carreira, Pedrito prepara o lançamento de um novo CD. “Quero fazer um Best Of, que, em princípio, sairá lá para o fi m do ano, no último trimestre. Neste CD vou juntar cerca de 20 músicas — aquelas que marcaram mais a minha carreira musical. Algumas delas poderão precisar de ser regravadas”, esclarece o músico.

 

Video

Videos